Quarta-feira: 20 de Julho
Tempo: 10h
Local: na porra da paragem do 28
Destino: Segurança Social das Laranjeiras
Olhava eu para o placard da Carris que indica os minutos de estimativa que faltam para o autocarro aparecer na paragem... em vão. Acho que aquilo está ali para enfeitar, porque nunca, nunquinha, jamais, aquele placard mostrou fosse o que fosse electrónico. Apenas pairam os números das carreiras e... pronto. Mais nada. Há tanto bibelô mais bonito para se ver e que até se pode brincar!
Tempo: 10h30
Estado da autora deste blog: paciente, reflexiva... e um tanto esquizofrénica
Local: ainda na porrenga da paragem do 28
Destino: Segurança Social das Larangeiras
"Mas olha lá, Tânia, não era melhor ir tentar a SS dos Restauradores? Sempre é bem mais perto." "Mas 'tás parva? Já te esqueceste do que lá passaste quando foste aos Registos? E desde Janeiro que temos lá ido e quando olhamos para a maquineta das senhas tem sempre uma das duas informações: "A senha A (atendimento geral) já não se encontra disponível" ou "O sistema informático não está a funcionar. Só damos informações."
Tempo: 11h19
Local: Segurança Social das Laranjeiras
Dirijo-me até às senhas. Carrego no botão A. Sai a senha 288. Olho para o placard que mostra o n.º actual: 56.
Fico estupefacta a olhar para a minha senha e de seguida, novamente, para o placard. Confirma-se. Tinha ainda 232 pessoas à minha frente para serem atendidas. Olho de soslaio para o lado para ver se tenho um lugar sentado. Regozijo-me por ter tido a brilhante ideia de ter trazido um livro para ler e outro para fazer sudoku. Sento-me e antes de sacar do livro, reparo que há três funcionários a atender. "Não importa, digo eu para comigo, perto da hora do almoço vão aparecer mais funcionários para despacharem mais depressa o serviço."
Tempo: 12h20
Local: Segurança Social das Laranjeiras
Enquanto leio o livro rio-me de algumas passagens cómicas. Logo sou interrompida com o choro de dois bebés. O funcionário da SS, vestido com uma bela t-shirt azul bebé a lembrar o Vitinho, e com características físicas semelhantes ao sex symbol Fernando Mendes, lembrou-se de dizer (em voz alta e grave): "Ò minha senhora, agarre no bebé. Faça-o parar de chorar!"
Ao que a senhora responde prontamente, e também com considerável som: "É bom que o ouça mesmo, para se despacharem a atender-me. Estou aqui há duas horas com o meu filho. Tirei a senha B de "prioridades". Não sei que raio de prioridade é esta!"
O cavalheiro de baby-blue vestido, em lugar de acatar a reclamação oral, preferiu continuar no seu discurso eloquente: "Nós atendemos as senhas de "prioridade" alternando com a outra."
A mãe da criança, agora já colocada no centro do corredor, tal Ophelia injustiçada, agarra no seu pequenote, senta-se e atira ainda ao ar: "Alternar é atenderem uma vez a senha A e na seguinte a senha B. Só passa para a senha B de hora em hora! Não sei que raio de "alternância" é essa!"
A esta altura estava eu prestes a ajudar à festa, colocando uns camarões salteados nos pratos e uns quantos croquetes para os convidados, quando o Fernando Mendes impersonator chama a dita senhora para a sua mesa e a atende.
Comentário do pessoal sentado: tenho que arranjar um filho brevemente.
Sorri delicadamente para a ideia cómica dos meus pares, mal sabendo eu que daria um jeitaço!
O facto é que há bem pouco tempo tinham sido interrompidas as senhas A, ficando só mesmo a senha das prioridades disponível.
Viam-se pessoas a entrar e a ficar decepcionadas com a falta da senha e revia-me nelas quando isso me acontecia quando eu ia até à Segurança Social dos Restauradores. Viam-se grávidas, velhinhos de bengala, pessoas que não eram velhinhas mas tinham bengala, pessoas com filhos de colo e ainda pessoas sem maleitas ou extras... todos tiravam a senha B.
Fiz a minha cara angélica enquanto pensava no molho que aquilo ia dar.
Não foi preciso esperar muito para ver os resultados.
1- Um senhor, já idoso, perguntava se ele podia ser considerado "prioridade". Quando a senhora da SS lhe perguntou pela idade, ele respondeu-lhe baixinho e virou as costas com ar de desalento mas quase que se ouvia a reacção dele murmurando: "Ahhh, não sou suficientemente velho."
2- Um outro senhor, uns anos mais novo que o anterior, sentou-se à mesa da mesma funcionária a suplicar: "Vá lá! Faça-me lá este favorzinho." Não sei porquê, mas a minha atenção centrou-se só na palavra "favorzinho" e na maneira como ela foi dita... lascivamente, vá. Ainda julguei que o homem ia desapertar a braguilha. Mas só estava a ajustar as calças. Ouviam-se, repetidas vezes a resposta da funcionária: "Não faço nada. E as outras pessoas que estão aqui há mais tempo à espera?" Sentou-se um rapaz de cor chocolate-negro que também levou com a frase catita do tal homem: "Deixe lá. Faça-me este favorzinho."
Ninguém o queria deixar passar à frente. Vá se lá entender porquê. O pessoal vai a uma Loja do Cidadão para deixar passar as horas e as pessoas. A Segurança Social já devia ter pensado em colocar uma roulotte de pipocas perto das senhas, que assim podíamos entreter a dentição e o estômago enquanto assistíamos ao espectáculo de três funcionários conseguirem atender mais de trezentas pessoas num espaço confinado e com redutos espaços sentados.
3- Um rapaz, mais novo que as minhas botas castanhas de cano alto, tentou também a sua sorte... curiosamente com a mesmíssima funcionária. Foi corrido mais depressa que os dois anteriores, engolindo a resposta curta: "Não o atendo."
Tempo: 15h
Local: ainda sentada numa cadeira da SS das Laranjeiras
Estado da autora deste blog: alucinações temporárias, com dores de rins e oscilações de humor
Já não suportava mais nenhum dos livros que tinha levado para me entreter. Já não aguentava com as dores de estômago que me faziam lembrar que ainda não tinha almoçado. O que me valiam eram as cenas caricatas que iam acontecendo, mas em especial na minha nova companhia que se tinha sentado entretanto ao meu lado. Era a minha Sexta-Feira naquele fatídico local que parecia o Inferno dantiano. Só assim é que consegui ultrapassar as últimas duas horas com alguma sanidade mental.
Cochichava-me ela:
_ Aquela ali das muletas e aquele de camisinha cor-de-rosa nunca mais saiem dali.
_ O que vale é que a das muletas não está a ser atendida por um homem, senão ainda demoraria mais _ respondia eu, ignorando que a minha Sexta-Feira não tinha reparado no decote que a dita tinha. O facto é que o decote fazia ver tudo menos os mamilos. Toda a carne que se via, dava vontade de tecer o seguinte comentário, enquanto vestia a saia e o avental de varina: "Olha lá, ò mula em fase de aleitação, se desses essas mamas ao talho davam para acabar com a fome em todó mundo e arredores!"
Andava eu a divagar nestes pensamentos, quando a Sexta-Feira murmura:
_ Olha, olha... aquela ali entrou ao serviço e põe-se a olhar para o ecrã do computador. Não chama ninguém. Está paradíssima!
_ Deve estar a ter um espasmo mental. _ Respondi eu pacientemente. Porém, não me apercebi que tinha mais ouvintes para além da minha Sexta-Feira e causo o riso a alguns. Apeteceu-me agradecer à la Senhora Dona Amália, mas não tinha espaço suficiente e as dores dos rins já se tinham multiplicado e passado para dores de costas.
Passaram vinte minutos e chamam a senha da minha Sexta-Feira à qual bato palmas (sim, nesta altura já não tinha comportamentos comedidos) e ela ri-se. Depois vejo que chamam pela minha senha e parece-me que vejo anjos a cantar à minha volta e a ouvir sinos de igrejas. Afinal o som era apenas da maquineta a insistir no meu número. Vou a correr para a mesa da funcionária que, pelos vistos, quer meter conversa comigo:
_ Aconselho-a a ir até lá abaixo aos registos para mudar a sua morada de residência. Tem a certeza que se for para a sua morada anterior consegue ir lá buscar?
_ Sim. É onde vive a minha mãe.
_ Mas vá lá abaixo, mesmo assim. Costumam ser rápidos os Registos.
Costumo ser calma e paciente, em especial quando estou em presença de uma pessoa estranha. Mas... desta vez não me contive:
_ Após 4h à espera ainda quer que me ponha noutra fila para tratar de uma coisa que não preciso para agora?
_ Eu sei... eu sei... _ dizia-me ela com ar maternal e a olhar para baixo_ este serviço da SS é um bocadinho mau.
_ Mau? Se eu fizesse esperar os pais dos meus alunos 4h para serem atendidos nas reuniões, eles linchavam-me, matavam-me e crucificavam-me... depois faziam de tudo para eu ressuscitar e voltavam-me a linchar, matar e a crucificar! Isto não é mau. Isto é muito mau!
_ Pois... pois é. Mas olhe que ouvi dizer que eles lá em baixo despacham-se.
Aquela parte do "lá em baixo" soou-me a inferno, já a imaginar o capeta a assar porcos e a flagelar o meu mufufu com a sua cauda espinhosa.
_ Não vou, não. E agora? Preciso de pagar alguma coisa?
_ Aqui a senhora não paga nada, sorria ela a tentar suavizar.
_ Depois da espera que tive quem me devia pagar eram vocês.
Teria sido uma saída triunfal se tivesse rematado com aquela... mas só consegui balbuciar: "Vá lá! Pelo menos isso."
Aconselho que quem queira tratar de qualquer assunto na SS, vá após as 13h, não sem antes porém de se meter debaixo de um carro, conseguir andar de muletas ou ainda roubar alguma criancinha de colo. Se conseguir estas todas, vai ser atendido em menos de 2h.
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