Antes eu era convencida... agora sou perfeita.



quinta-feira, maio 17, 2012

A ironia (parte II)

"Carpe diem", expressão latina, que significa aproveita o dia, celebrizada no filme O Clube dos Poetas Mortos. Há quem faça dela o seu motto. Porém, fico de pé atrás quando a ouço a ser pronunciada. Não por ser uma expressão já demasiadamente batida, mas porque alguns a interpretam como desfrutar daquilo que se nos apresenta e não pensar sequer em mais nada se não no deleite, ignorando, assim, consequências. Não nos iludamos. Se há uma causa, há um efeito. Se eu ajo de determinada maneira, vai acontecer eventualmente outra coisa como efeito do que fiz. Não há volta a dar. Sim, sim... "há que arriscar", "a vida são só três dias", "não se pode viver sempre na penumbra", etc etc... Porém, estes chavões todos fazem mais sentido quando é um amigo que nos quer despertar para o marasmo que se tenha apoderado de nós. Mas convenhamos... o "carpe diem" deve ser apenas usado em situações que seja necessário fazer com que a pessoa depressiva reaja e saia do seu mundo de trevas. Não o usem como um objectivo de vida. Aproveitar o dia não significa esquecer das suas obrigações. Desfrutar do presente, não significa que tenhamos que esquecer tudo o que nos tenha acontecido no passado e que nos formou a pessoa que somos agora, para podermos pinar e curtir à grande com quem se nos depara à nossa frente e achamos minimamente interessante.
Receio a expressão. Isto porque me soa a um tanto infantil... fazendo mais sentido para as crianças do que para os adultos. Apesar de que os há ainda com Síndrome de Peter Pan. Para mim, não há nada mais ridículo que um homem que sofre de tal maleita. Há quem ache até sensual a sua convicção de que faz bem reter a criança em si. Uma coisa é um homem divertido, com sentido de humor apurado, outra é um homem mimado, imaturo e sem tomates para assumir o que quer que seja de concreto na vida. Pior que ter este Síndrome, é o "homem" a quem lhe mirra os berlindes sempre que se fala em responsabilidades. Um pai de um aluno meu, por exemplo, prefere não tratar dos "papéis" devidos para o Tribunal de Menores, respeitantes ao seu filho, porque: "Só de pensar que vou ter que perder um dia da minha folga para ir tratar de papéis... Já perco a vontade." (sic)
Gajos amebas (que não fazem um corno), gajos inseguros (que não sabem se querem se não, não sabem se desistem ou se devem continuar, não sabem se devem aparecer ou desaparacer de vez), gajos coninhas (que têm medo até da sua própria sombra), gajos bananas (moldam as suas opiniões conforme a pessoa que têm ao seu lado), gajos que não têm e recusam ter opiniões estruturadas de assuntos variados para evitarem conflitos... todos estes gajos deveriam ser linchados em praça pública e passarmos por cima dos cadáveres deles, enquanto jogamos piñata.
Por outro lado, coisas que se passam ao meu lado, fazem-me acordar desta estupidez toda:
_ uma mãe que acompanha o seu filho desde que este fizera os sete anos de idade com idas ao IPO todos os meses, por lhe ter sido diagnosticado leucemia. Durante 10 anos, exames sucedidos por outros exames, fazem os médicos concluir que não resta muito mais que 2 meses de vida ao rapaz que já completa 17 anos. O caminho natural da vida seria a mãe partir deste mundo mais cedo que o filho... não o contrário. Olhar constantemente para o leito do filho, que se contorce em dores, devido à quimioterapia que o deixa queimado todo por dentro. Noites a fio enjoado, com vómitos e a desejar que por um segundo... um segundo apenas possa respirar sem sentir náuseas ou dores agudas. Quando um filho perde um dos seus progenitores, ele é órfão de pai ou de mãe, consoante. Ao que se chama a uma mãe que tem como certo a morte do seu filho em escassos meses? Nem a língua portuguesa tem um termo para tal. 
_ uma rapariga, que regressa ao seu país natal para visitar a família. Espera horas e horas até que recebe um telefonema da mãe, que a espera ansiosamente em casa, e lhe diz a soluçar: "Apanha um táxi. O teu primo não te pode ir buscar. A caminho daí, teve um acidente e morreu."

Carpe diem...

quarta-feira, maio 16, 2012

A ironia

Sempre achei um desperdício de tempo, dinheiro... ter plantas. Porém... tenho andado (quase) obcecada com o meu jardim, que se situa nas traseiras da minha casa.
Não há fim de semana que eu não passe umas boas horas a trabalhar nele: a) ou me sento nele e ponho-me a corrigir fichas/testes; b) ou ainda trato dos meus gatos (penteá-los, cortar-lhes as unhas, lavar-lhes os dentes com pasta especial...); c) ou ainda, tiro as ervas daninhas e planto outras dadas pela minha tia ou pelo meu primo.
No passado sábado, dediquei-me apenas à jardinagem. O plano era simples: cortar a relva e, depois, pôr os gatos à solta no jardim. No entanto... entusiasmei-me de tal maneira que o que aconteceu foi:
_ Epá... _ olhava eu para o jardim com o nariz torcido _ esta relva está demasiadamente alta... Se calhar vai demorar.
Olho para o relógio, e eram onze e meia.
_ Bom, se não andar aqui a engonhar, ainda consigo acabar isto antes da uma.
Fui buscar o cortador de relva eléctrico e comecei na faina. Após hora e meia, já me sentia a pingar por todos os poros e sem ter conseguido cortado um terço da relva. Já me sentia mal, tal era a fraqueza. Resolvi fazer a pausa para o almoço e continuar. Juro, juradinho, que não me demorei muito. Fui ainda falar com o meu primo e pedir-lhe umas explicações de "como tirar o raio do fio vermelho cortante de dentro da maquineta". Acontecia de 5 em 5 minutos (sem exagero), a pausa para desligar o cortador, porque o próprio fio cortava-se quando estava a fazer a sua função na relva. Lá tinha eu que desarmar a máquina toda para voltar a colocar o fio para fora, de modo a poder continuar o corte. Conclusão: um trabalho que deveria demorar pouco mais que 2h, demorou 6h!
Ao cabo daquelas horas todas já me doíam as costas, as pernas, até as pontas dos dedos que se tinham entretanto tornado verdes porque estava eu sempre a tirar os restos de relva que teimavam em infiltrarem-se na máquina. Para além disso, sentia um pequeno ardor na cara e nos braços. Não contente com aquilo, fui buscar uma espécie de vassoura para tirar as folhas cortadas do jardim, e com a vassoura comum, varrer o que havia na passadeira de pedra. Uma vez que estava com a mão na massa, fui até ao jardim do meu primo e também varri a passadeira que lá havia. Olhei para as escadas e lá fui eu, com vassoura e pá nas mãos, e varri-as até chegar às escadas da minha vizinha (que também varri... não a vizinha, entenda-se...). Não vale a pena elevar esse sobrolho, caro leitor. Eu sou Virgem. Gosto tudo muito bem limpinho e varridinho e arrumadinho. Ainda para mais, tinha deixado cair algumas folhas pelo caminho, enquanto transportara as folhas cortadas para o lixo; por isso, só fiz o que me competia... Mas enfim... adiante... arranjei as roseiras e o jasmim. Cortei-me nos espinhos das roseiras e ganhei bolhas nas mãos por arrancar tanta relva perto do jasmim, porque se tivesse usado o cortador perto dele... já há muito que não o teria.
Eram 8 horas da noite... estafada, arrastei-me até casa e fui tomar o 14º duche do dia. Reparei depois que tinha um bronze à camionista, porque aquelas horas todas tinham produzido o efeito camarão nos braços. Aprontei-me para ir ter com a minha mãe, como habitual, para cuidarmos do Alex (o tal cão que encontrámos em Julho... Sim, chegámos por ficar com ele!) Perdi o autocarro. Só havia uma solução ir a pé ou esperar cerca de 45 minutos por um que passasse. Optei por ir a pé. O meu masoquismo até a mim me espanta. Mas julgo que tomei a decisão de caminhar durante 20 minutos, porque as 8h na faina, deram a oportunidade de alguns raios solares ultrapassarem o chapéu de palha e esturricarem-me alguns neurónios. Chegada ao destino, já acompanhada, fui ainda passear o cão.
Domingo. Dia santo para alguns, enquanto que para mim foi um inferno. Posso resumi-lo numa única palavra: DORES!

A escala no domingo

quarta-feira, maio 02, 2012

Pingo Doce

Ontem, dia do trabalhador, 1 de Maio de 2012, fui vacinar o Ruivo (um dos meus gatos!) na Clínica Veterinária, como combinado no dia anterior com a veterinária dos meus 4 gatos. A Clínica não estaria aberta ao público, mas fazia-me o especial favor de abrir a clínica de manhã para me receber e vacinar o meu "menino". Estava já na paragem, com o "rapazito" na caixa transportadora, quando recebo uma chamada da senhora minha mãe:
_ Onde andas? Podes ajudar-me? Acho que me meti numa enrascada.
Ora, a enrascada era que se encontrava há mais de duas horas numa fila interminável do Pingo Doce para pagar os poucos produtos que queria comprar.
_ Vem cá num instante! _ insistia.
Ponderei se seria prudente levar o Ruivo para o Pingo Doce, mas logo de seguida gargalhei. Deixei-o em minha casa e fui ter ao Pingo Doce com um saco.
Quando lá cheguei... um cenário grotesco que só fazia lembrar quando eu era pequenina e o meu pai me levava a mim e ao meu irmão para a Feira do Livro: eu só via era pessoas amontoadas, empurrando-se e a gritarem umas com as outras. A diferença era uma questão geográfica.
_ Mãe, o que se passa aqui? _ perguntei-lhe assim que a consegui alcançar.
_ Fazem 50% de desconto numa compra de 100€.
_ Mas não vamos conseguir com estes dois saquitos.
_ Não interessa! Vai comprar o que precisas!
Notei que na expressão dela havia regozijo. Aquilo parecia uma aventura. Já se conversava com as pessoas que se encontravam à nossa frente da fila e atrás como se as conhecêssemos desde infância. De vez em quando, saía uma senhora lá de trás da fila, e fazia questão de referir em especial à minha mãe e a mim:
_ Vocês aguentem aqui a fronteira, para ninguém passar à vossa frente.
A senhora vinha artilhada com o seu chapéu de chuva com cabo de madeira e uma indumentária com gosto duvidoso.
_ Claro, com certeza. Não se preocupe que controlamos isto. _ Dizia-lhe eu, enquanto lhe sorria e obtinha o aval dela com palmadas nas costas.
A fronteira era a parte da fila em que se subdividia entre a caixa de pagamento 3 e 4. Parecia que estávamos face uma guerra civil. De facto, assim parecia, mas dentro da mesma fila havia camaradagem e incentivos para não desmoralizarmos perante o inimigo (o cansaço). Estávamos praticamente a escassos centímetros da caixa registadora, quando reparámos numa penetra. Deitámos-lhe os olhares óbvios fulminantes; mas a inimiga desviava-se dos olhares que lhe atirávamos. Avisámos o nosso companheiro de batalha, que se encontrava atrás de nós. Ele anuiu com a cabeça e pôs-se em posição de sentinela. A minha mãe, não contente ainda com a pouca eficácia das nossas acções, emitiu o seguinte à mulherzinha:
_ A fila é lá atrás.
A mulher nem olhou para a minha mãe e só respondeu secamente um simples: "Eu sei."
Porém, a pressão derrotou-a e resolveu sair da nossa fila e penetrar noutra... que no entanto também não teve sorte e desistiu, saindo do Pingo Doce sem quaisquer compras. Festejámos por termos derrotado a penetra e comentávamos entre nós: "Não faltava mais nada! Desistiu e ainda bem!"
Ouvíamos entretanto, noutras "trincheiras" que noutra "guerra", ali para os lados de Chelas, já tinha acontecido violência. Receávamos que nos acontecesse o mesmo, mas já estávamos a poucos cms da caixa.
Ao cabo de 3h30 dentro daquele Pingo Doce, saímos sãs e salvas... porém sem termos conseguido atingir os 100€ e apenas atingido os 53€. Não saímos assim tão ilesas...